• Lurian Osorio

Como integrar fé e trabalho

Atualizado: 4 de abr.




Esse tem sido um dos principais questionamentos quando trazemos o tópico espiritualidade no ambiente de trabalho. E antes de se aprofundarmos nesse assunto, é importante compreender alguns fatores antes. Nosso trabalho e nossa vida não são coisas diferentes como muitos pensam, elas não são duas caixinhas distintas tipo “vida” e “trabalho”, esse ponto de vista está equivocado, ao contrário do que as pessoas acham, existe a caixinha “vida” onde o trabalho é só mais um dos elementos que compõe ela. O conceito de espiritualidade é algo mais relacionado ao comportamento do que necessariamente a propagação de crenças. Esse comportamento das pessoas é derivado de seus valores e convicções morais e éticas. Quando uma empresa se posiciona no mercado como uma empresa cristã, é preciso ter em mente que a construção dessa cultura está totalmente relacionada aos seus fundadores, e seus comportamentos. É um conceito um pouco mais abstrato do que taxativo. Com isso em mente, vamos voltar ao nosso assunto principal fé e trabalho. Ter uma cultura cristã nos dias de hoje é um pouco complexo quando entendemos a origem do trabalho na bíblia e qual é o seu propósito, e de como a nossa estrutura sobre a qual construímos nossas expectativas de trabalho são divergentes.



Uma das esperanças para nossa sociedade fragmentada é a redescoberta do conceito de que todo e qualquer trabalho humano não é simplesmente uma tarefa, mas um chamado (O termo latino vocare (chamar) é a raiz de nossa palavra "vocação")


Hoje a palavra remete apenas a trabalho, mas este não era o sentido original. O trabalho só passa a ser uma vocação se alguém chamar você para fazê-lo e se ele for feito para quem o chamou, e não para você mesmo. Da mesma forma, nosso trabalho só é um chamado se for repensado como uma missão ou um serviço em favor de algo acima dos nossos meros interesses pessoais.


Enxergar o trabalho principalmente como meio de satisfação e realização individual destrói lentamente a pessoa e solapa a própria sociedade. No entanto se vamos "reapropriar" uma ideia antiga, temos de analisar sua origem. A fonte da ideia de trabalho como vocação é a Bíblia Sagrada.


Hoje se você perguntar: como aplicar fé ao trabalho? Muitos irão responder que você precisa ser “exemplo” no seu ambiente de trabalho e “evangelizar” as pessoas que trabalham com você, sempre baseado no social e local. O que muitos não falam é sobre integridade e honestidade, em tudo que você faz, desde sua rotina, horário, reuniões até o comportamento, focado mais no pessoal.



 


No século 20 dois líderes do cristianismo Lutero e Calvino fizeram suas avaliações sobre o trabalho:


Lutero defendia o trabalho como um instrumento da obra providencial de Deus de cuidar da criação, dando uma ênfase especial a dignidade de todo e qualquer trabalho, observando que Deus cuidava, alimentava, vestia, abrigava e sustentava a raça humana por meio do trabalho do ser humano. Quando trabalhamos somos os "dedos de Deus”, os agentes de seu amor providencial aos outros. Essa compreensão eleva o propósito do trabalho de ganha-pão para amor ao próximo e, ao mesmo tempo, nos liberta do fardo esmagador de trabalhar especialmente para provar nosso valor!




Figura 01: Calvino defendia o trabalho com um meio de continuar a obra criadora de Deus, de edificar uma cultura que o honrasse. Além de cuidar da criação, o trabalho é desenvolver uma cultura que honre a Deus e capacite os seres humanos a prosperar e florescer.


O cristianismo nos oferece lições especificas sobre a natureza humana e o que estimula seu desenvolvimento, devemos nos assegurar que nosso trabalho seja realizado de acordo com essa compreensão, portanto, trabalhar fielmente significa agir sob uma "cosmovisão" cristã. Não existe uma receita pronta do modelo correto de servir a Deus no trabalho, pense em uma caixa de ferramentas a ser usada na construção de um modelo que integre fé e trabalho, levando em consideração nosso campo de atuação, tempo, contexto e compreensão do assunto.


Quando afirmamos que a bíblia "nos dá esperança" para trabalhar, reconhecemos que o trabalho pode ser imensamente frustrante e difícil quanto que nossa esperança espiritual deve estar profundamente enraizada, se desejamos enfrentar o desafio de buscar nossa vocação neste mundo.



 

Figura 02: Existe um escritor chamado J.R.R.Tolkien, ele passou décadas de sua vida depois que voltou da 1ª guerra mundial trabalhando na criação de sua obra, uma história complexa, em um desafio tremendo na criação de personagens únicos, cenários vislumbrantes, de desenrolar todas essas sub narrativas, e conseguir ter uma resolução satisfatória.


No desespero de não concluir a obra da sua vida, seus pensamentos terríveis e paralisantes de não conseguir terminar estavam tomando conta da sua criatividade, Tolkien saiu para dar uma volta e contemplar a árvore que existia na rua da sua casa, mas naquela manhã seu vizinho havia podada, só restando uma árvore mutilada. Olhando para tudo aquilo, Tolkien pensou na sua obra como sua árvore interior e se deu conta que sua energia mental e inventiva havia secado.

Então Tolkien voltou para casa e escreveu uma obra chamada Leaf by Niggle. Niggle significa trabalhar de modo inútil ou ineficiente, desperdiçar tempo com detalhes insignificantes. Nessa obra Tolkien quis retratar ele, seus defeitos, ansiedades, procrastinação e a longa jornada (literatura anglo-saxônica traduz como morte) inerente de todas as pessoas.

Existia um pintor chamado Niggle (definição: trabalhar de modo inútil ou ineficiente, desperdiçar tempo com detalhes insignificantes) e ele tinha uma longa jornada a cumprir que lhe desagradava, mas que não tinha outra saída (a morte).

Niggle era um pintor que estava tentando pintar um quadro especifico, ele tinha em mente uma folha, logo, de uma árvore inteira. Em sua imaginação atrás da árvore começou a surgir um país, depois o vislumbre de uma floresta.



 


Ele largou todos seus outros quadros para se concentra nessa obra da sua vida, comprou uma tela gigante para começar seu quadro verdadeiro antes de morrer.

Ele passou muito tempo na sua tela, mas sem muito progresso porque ele era muito habilidoso para pintar folhas do que arvores, logo, ele ficava muito tempo em uma única folha tentando chegar no tom exato, o reflexo, as gotas de orvalho mais precisas. Então mesmo que tendo esse baita esforço, muito pouco foi retratado na tela e também por seu coração gentil. Niggle sempre interrompia sua pintura apara tender as necessidades de alguém. Nessa tentativa de ajudar uma pessoa, ele ficou doente e não conseguiu terminar sua obra e o motorista da sua nova jornada chegou sem poder ser adiada. Então Niggle caiu no choro por não conseguir terminar.

Algum tempo depois, a pessoa que comprou a casa achou a tela deteriorada, porém com uma única folha intacta. Ela foi parar em um museu como "A folha de Niggle" admirada por poucos olhos.


Na sua nova jornada Niggle escuta duas vozes: uma severa da Justiça dizendo que ele perdeu muito tempo e realizou pouco na vida e outra mais gentil (embora não fosse suave) da Misericórdia contrapondo o julgamento anterior dizendo que ele se sacrificou pelos outros, sabendo exatamente o que fazia. Como recompensa quando Niggle chega à cidade celestial, algo chama a sua atenção e lá estava ela: A árvore, a sua árvore, concluída, com suas folhas se abrindo, seus galhos crescendo e dobrando-se ao vento que Niggle tantas vezes sentiu ou imaginou e mesmo assim não conseguiu reproduzir. Ele a abraçou e exclamou: é um presente!!


O mundo antes da morte- seu antigo país- se esqueceu de Niggle quase de imediato e nele seu trabalho ficou incompleto, útil somente para poucas pessoas. Mas nesse novo país, o mundo real verdadeiro, o artista descobre que sua árvore com todos os detalhes e terminada, não era apenas um sonho que morreu com ele. Não, ela fazia parte da realidade verdadeira, que existiria e seria apreciada para sempre.


Duas interpretações para esse final: Niggle estava dando ao mundo presente um vislumbre parcial do mundo futuro da verdade subjacente, outra é, Niggle saber que seu quadro se tornou verdadeiro no fim da sua jornada, ou seja, que seu galardão concedido por Deus é tornar real a imaginação artística dele como parte da verdadeira criação.




Figura 03: A Niggle foi dada a certeza de que a arvore que ele havia "sentido e imaginado" era "uma parte verdadeira da criação" e que até mesmo o pedacinho que ele revelou as pessoas na terra tinha sido uma revelação da Verdade!


 

Existe uma terra perfeita chamada Nova Jerusalém...lá não precisa de nossa ação humana para ter justiça, preservação da natureza, beleza, paz, ordem, cura. O trabalho de quem crê nesse futuro restaurado é mostrá-lo (mesmo que em parte) aos outros!


No entendimento de Tolkien Deus nós da talentos e dons para fazermos pelos outros o que deseja fazer por nós e por nosso intermédio. Pessoas trabalham a partir de sonhos, geralmente grandes, de um mundo que só eles imaginam. Poucos conseguem enxergar até mesmo uma fração desse sonho e um número ainda menor pode afirmar que conseguiu chegar perto. Se você é perfeccionista e metódico em excesso, como Tolkien era, consegue se identificar de verdade com o caráter de Niggle. Lá no fundo todo mundo é Niggle, todos se imaginam realizando coisas e todos se descobrem bastante incapaz de produzi-las. Todos desejam ser bem-sucedidos e contribuir para um mundo melhor, mas isso está longe do nosso controle, a vida é tudo que existe e não importa o que faremos, não haverá ninguém para lembrar, até mesmo as boas obras acabarão em nada.





Mas calma, tudo é equilíbrio, cada boa obra, até a mais simples, se buscada em resposta ao chamado de Deus, terá significado eterno! “Nele [no Senhor] o vosso trabalho não é inútil. ” (1 Coríntios 15:58).


Deus existe, existe um mundo futuro restaurado que Ele trará, e nosso trabalho é mostrá-lo (em parte) aos outros. Isso irá acontecer nos seus melhores dias, você tentar trazer esse "mundo" à existência e será apenas parcialmente bem-sucedido! Uma ou duas vezes na vida tu vai achar que "terminou uma folha”.


Então seja qual for o seu trabalho, a árvore está lá, a sua espera, então a pergunta é, o que você busca? Justiça, paz, ordem, cura? Saiba que por menor que seja, você terá frutos: harmonia, conforto, alegria, comunidade, ou de acordo com o que tem buscado no seu interior. E esse é o ponto crucial! Se você sabe disso, então não ficará desanimado por conseguir uma ou duas folhas nesta vida. Você trabalhará com satisfação e alegria. Não ficará arrogante devido ao sucesso nem devastado pelos contratempos.


(Fonte: Livro fé e trabalho - Timothy Keller)


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É isso galera, se tiverem dúvidas me procurem!


Beijinhos


Lu Osorio


Head de Cultura da Sozei

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